As aventuras e desventuras de um delicioso naufrágio em plena região amazônica

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“Naufrágio” no paraíso. Ah, como foi bom!

Berna Farias texto e fotos*

Seis horas da tarde. O sol se avermelhava e descia no horizonte e uma nuvem, junto dele, tomou uma forma que lembrava, muito, a imagem do Cristo Redentor, com os braços abertos nos abençoando. A imagem foi uma esperança para as mais de vinte pessoas dentro do barco que, acabávamos de saber, estava à deriva na imensidão do rio Arapiuns, confins do Pará, por conta de uma pane no motor. Quase metade das pessoas correu para o lado esquerdo da embarcação, a fim de ver a cena.

Proteção divina, quem sabe, em pouco tempo surgiu outra embarcação, uma lancha, cujo comandante atrelou nosso barco e o conduziu para a terra mais próxima. O lugar, chamado Arara, era uma extensão de cerca de 200 metros de areia branca, contrastante com a densa floresta verde-escura, à beira do rio Arapiuns e tendo, do outro lado, o rio Tapajós. Imensidão do rio e imensidão da selva nos abraçava. A noite fechada caiu. O comandante da lancha, o velejador Guarani, feliz ao saber que tínhamos dois amigos velejadores em comum, nos providenciou o conforto possível na ocasião: refrigerantes, água, iogurtes, biscoitos doces e salgados.

Parte do grupo ainda dentro do rio, curtindo a água morna, escura e mansa do Arapiuns, e outra parte providenciava uma fogueira, enquanto alguns se encaminharam para a comunidade de Arara, mais para dentro da mata, na tentativa de conseguir sinal de telefone para se comunicar com Santarém e pedir o resgate. Felizmente conseguiram. E foi aí que pessoas de uma das cinco famílias de ribeirinhos, todos parentes, que compõem a comunidade, perceberam que se tratava de uma situação de “aperreio”, como disse a mãe da família, dona Naziane, e vieram ajudar.

PIRACAIA

O marido de dona Naziane, Francivaldo, e um dos filhos, Francinelson, já rapazinho, foram para um lago perto da comunidade, pescar para nós. Trouxeram três espécies de peixe: carapucu, jaraquê e a piranha apurá, que só existe naquele lago. Então ficamos sabendo que teríamos uma piracaia, palavra que, em língua indígena, significa peixe assado na fogueira. Os peixes, tratados e limpos, foram dispostos sobre uma “cama” de varas sobre a fogueira, um jeito de assar que os índios e os ribeirinhos chamam de muquém.

Turistas, em particular os estrangeiros, pagam pequenas fortunas por uma experiência de imersão na floresta amazônica à noite e desfrutar de uma piracaia ao estilo nativo. Nós estávamos vivenciando uma experiência autêntica, não programada, com os pés na areia de Arara e cercados de mata e rio. Um verdadeiro paraíso. Como disse dona Naziane, “não penso nunca em sair daqui”, mesmo com as dificuldades que a família, de oito pessoas, enfrentam, vivendo só da pesca e do roçado.

Dona Naziane trouxe de casa um caldeirão com farinha de mandioca grossa, bem comum no Pará. O acompanhamento não podia ser melhor para os peixes comidos ali mesmo, na beira da fogueira. A noite avançava e nem sinal de embarcações. Duas luzes foram avistadas, acendendo a esperança de serem as duas lanchas prometidas pelos companheiros de Santarém, mas sumiram no breu. Pessoas acostumadas ao conforto de hotéis cinco estrelas dormiam na areia, com mochilas e outros objetos como travesseiros.

Projeto de proteção dos quelônios, as tartarugas de agua doce

Outras, conscientes da experiência rica e única, se unificavam à natureza e curtiam sua força. Na magia da hora e do lugar, houve quem visse espíritos de índios e seres das águas, que os indígenas chamam de aruanãs – seres meio humanos, meio peixes. Um dos colegas jornalistas teve sua aura, esverdeada, captada em várias fotografias feitas com seu aparelho celular. A madrugada chegou e os poucos que não dormiam, vencidos pelo cansaço, tomavam banho de rio ou conversavam sentados nas pedras ou na canoa deixada na beira d´água por algum dos ribeirinhos.

Passava de uma hora da manhã quando, finalmente, um barco grande nos localizou: as duas lanchas prometidas não conseguiram nos localizar na noite fechada e voltaram a Santarém, de onde enviaram a embarcação para nos resgatar. Na cidade, os que ficaram estavam todos na expectativa, a maioria desejando ter vivido a aventura junto com a gente.

ARAPIUNS

E como fomos mergulhar nessa aventura? Foi durante o ENCOMTUR,, o Encontro Nacional de Jornalistas e Comunicadores de Turismo, em outubro de 2021, na cidade de Santarém, Pará – de onde, após os três dias de palestras, debates e ricas apresentações sobre iniciativas do setor de Turismo naquele estado, fomos conhecer uma das mais belas praias de água doce, Alter do Chão, e a maior ilha fluvio-marinha do mundo, Marajó

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Galeria Arapió, Vila Coroca

Restaurante Pés na Areia, e o grupo de “naufrágos” em Vila Coroca

D0ces e geleias de cupuaçu, óleos de copaíba, andiroba e coco

Ainda em Santarém, partimos do porto hidroviário para uma Press Trip com roteiro de contemplação e vivência na floresta. O destino seria, percorrendo parte do rio Tapajós e alcançando o rio Arapiuns, a comunidade indígena Vila Coroca. Ali, conhecemos os projetos de criação e preservação de quelônios – tartarugas de água doce –, a criação de abelhas nativas, o Meliponário, e o ponto alto: o artesanato de cestaria, com a arte da trançagem dando forma a dezenas de tipos diferentes de objetos utilitários e decorativos, coloridos com tintas também artesanais extraídas de frutos e árvores nativas.

O passeio, em trilhas ecológicas daquelas que renovam nossas energias, foi arrematado com um almoço caseiro, à base de peixe fresco, delicioso. De lá partimos para os banhos de rio no meio da tarde, um merecido “relax” e momento de conversas com boas risadas, até que embarcamos e… o barco estava vazando o óleo do motor. Daí para a pane total foi só questão de tempo. A aventura, prevista para acabar no fim da tarde, estendeu-se até a madrugada. E, apesar de algum estresse e temor, ao final só podíamos dizer: HA’EVEte! Que, em tupi-guarani, significa obrigado, gratidão.

*Berna Farias e jornalista

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